Cavalo dado se olha os dentes

O antigo ditado que dizia: “Cavalo dado não se olha os dentes”, definitivamente já não é verdadeiro. Mistérios escondidos dentro da boca do seu cavalo foram desvendados. Alguns meios diagnósticos da medicina humana foram disponibilizados para  a  eqüina. Esse fato possibilitou entender os processos de mastigação e sua influência na digestão dos alimentos, ganho de peso e massa muscular. Muitos distúrbios que causam dor na boca começam a ser analisados e meios diagnósticos avançados ainda não estão disponíveis para a o uso no campo ou, em diversos casos, seus custos estão fora da realidade da criação brasileira. No entanto, o uso de equipamentos como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética e a endoscopia intraoral (figura 1) possibilitaram a realização de diversos estudos e pesquisas que ajudaram a explicar diversos sintomas clínicos de doenças que interferem no desempenho do cavalo atleta. Uma das áreas mais beneficiadas com estes estudos foi a odontologia eqüina. Dessa forma, o antigo ditado mudou para: “Cavalo dado se olha os dentes”.

Como qualquer novidade, no Brasil, durante a última década (em se tratando de ciência, 10 anos são pouco tempo), ocorreu uma popularização do tratamento odontológico para os cavalos. De repente, surgiram vários cursos, “especialistas e mestres”, oferecendo serviços. A frase: “Seu cavalo está precisando fazer os dentes”, tornou-se comum no meio hípico.

A limitada abertura da boca do cavalo, com um formato de cavidade oral cônico e profundo, impossibilita a completa visualização de todas as estruturas pelo tratador e pelo proprietário que na maioria das vezes não está presente no momento da intervenção odontológica (figura 1 A). Como avaliar o serviço, identificar e escolher um profissional realmente capacitado na área da odontologia equina? O objetivo deste artigo é auxiliar o criador e proprietário de cavalos na escolha de um profissional adequado através da observação de alguns fatos, atitudes e posturas do odontólogo que irá tratar o seu cavalo.

1- Quem é que está atendendo seu cavalo? Não há possibilidade de realizar um tratamento odontológico sem realizar uma sedação. Apenas veterinários formados estão capacitados para examinar e decidir se seu cavalo está apto a ser sedado. O profissional deve ser capaz de reconhecer estruturas anatômicas normais e fazer um diagnóstico adequado. Fuja dos práticos! Procure recomendações de criadores, proprietários e veterinários sobre o dentista em questão.

  2- Como é realizado o exame odontológico inicial? É possível realizar diversos diagnósticos sem necessidade de sedação e colocação de um espéculo (“abre-boca”). Toda a cabeça deve ser apalpada, a mastigação observada e as fezes examinadas. O interior da boca pode ser apalpado e parcialmente observado por meio do afastamento da língua. Não permita que segurem seu cavalo apenas pela língua! Graves lesões podem acontecer e  seu cavalo pode ficar definitivamente com a língua pendurada para fora da boca. Por motivos de higiene, desconfie de profissionais que não usam luvas descartáveis durante o exame. Elas devem ser descartadas a cada exame, principalmente após examinar as fezes. A embocadura deve ser inspecionada e seu tamanho deve ser mensurado e comparado com o tamanho da boca. O mesmo gabarito usado para medir a largura da embocadura deve ser usado para medir o tamanho da boca.

 3- Observe os cuidados antes da sedação: Não permita que seu cavalo seja submetido a uma sedação sem um exame clínico prévio! Qualquer problema deve ser identificado antes da sedação. Exceto em casos de emergência, não se deve sedar cavalos doentes. Muitas doenças são diagnosticadas por intermédio da auscultação (ato de examinar diferentes órgãos através do uso de um estetoscópio) do coração, pulmões e intestinos, da mensuração da temperatura retal com um termômetro e da inspeção de mucosas oral e ocular. Há questionamentos sobre o histórico recente de doenças? Muitos dos problemas ocorridos durante a sedação poderiam ser evitados com um exame clínico bem feito. O tratamento odontológico normalmente não é emergencial. Em casos de doenças prévias, o ideal seria tratá-las para então submeter o seu cavalo a uma sedação e ao procedimento odontológico.

 4- Verifique os materiais odontológicos: O mecânico de seu carro realiza um reparo apenas com duas ou três ferramentas? Cada pedaço do motor tem um acesso, com diversas peças diferentes. Sem as ferramentas adequadas e em quantidade suficiente não será possível consertar o carro. Algo semelhante ocorre na boca de seu cavalo. Há uma série particularidades que não permitem que apenas uma grosa ou um tipo de caneta odontológica realize todo o procedimento odontológico. Profissionais habilidosos, na presença de bocas com boa abertura e pouca profundidade, podem utilizar poucos instrumentos, porém, tem de estar preparados com uma série de diferentes equipamentos para realizar todo o serviço odontológico (figura 3). Alguma vez o mecânico do seu carro não realizou o serviço por que não tinha uma ferramenta? Imagine você sendo atendido por um dentista que não possui espelho odontológico (Figura 5)? Pense então, no mecânico consertando seu carro ou o seu dentista tratando sua boca no escuro… Você permitiria a introdução de alicates ou chaves de fendas na boca de seu cavalo?

 5- Observe a higiene com os materiais: Não permita o uso de materiais enferrujados e sujos durante o procedimento. Assim como acontece nos humanos, é comum ocorrer pequenos sangramentos durante o procedimento odontológico, ainda mais na presença de muitas feridas, causada por pontas de esmalte dentário. É possível passar uma infecção de um cavalo para outro através de instrumentos sujos. O dentista de seu cavalo deve ter solução desinfetante para os materiais.

6- Questione sobre o uso de materiais atóxicos: lubrificantes e graxas de motores de uso geral e alguns tipos desinfetantes de uso cirúrgico são tóxicos quando ingeridos. Os desinfetantes usados nos matérias, os lubrificantes e graxas usados nos motores e canetas odontológicas devem ser atóxicos. Nos rótulos desses produtos, há especificações sobre suas características de segurança. Eles estão disponíveis no mercado, portanto, não há desculpas para não utilizá-los.

7- Acompanhe o procedimento odontológico: se você não pode estar presente, peça ao tratador ou cavaleiro de sua confiança para acompanhar o procedimento. O profissional de odontologia equina deve ter segurança e capacidade de explicar e mostrar tudo o que está ocorrendo dentro da boca. Questione, pergunte o que está acontecendo, quais as consequências, qual é o prognóstico? Peça para ver como está a boca, como os dentes tocam, antes e depois do procedimento (figura 6a e 6b)

8- Cuidados com a finalização do procedimento: É comum ouvir histórias de ocorrência de cólica após o procedimento odontológico. A presença de dor na boca causa a redução de ingestão de água e produção de saliva (um cavalo com 500 kg produz até 25 litros de saliva por dia; na presença de dor contínua essa produção é extremamente reduzida!) que podem levar a formação compactação intestinal. Isto pode ser controlado com o uso de materiais de forramento dentário (figura 7) e analgésicos. Toda possibilidade de dor pós-procedimento odontológico deve ser avisada pelo dentista. A ingestão de água, a frequência de defecação e o possível ressecamento das fezes devem ser observados e as alterações podem ser corrigidas facilmente com administração de soro intravenoso e administração oral de óleo mineral sem que o cavalo sofra de síndrome de cólica. Os riscos da sedação são minimizados com o uso de antídotos que revertem seus efeitos e “acordam” o seu cavalo em poucos minutos. Se o animal foi submetido a bloqueios anestésicos regionais e a boca e a língua estão dormentes, ele deve ficar preso no cabresto e sem comer durante o tempo indicado pelo dentista para evitar acidentes com mordidas nestas estruturas. O dentista deve ensinar ao tratador como avaliar se a sensibilidade da boca e língua retornaram ao normal. Se durante o procedimento o cavalo ficou muito nervoso, recomenda-se o uso de protetores gástricos por três dias.

9- Observe seu cavalo após o atendimento odontológico: Na presença de um equilíbrio ideal e conforto,  o cavalo passará comer melhor em pouco tempo. Se permanecer comendo mal e incomodado por mais de dois dias, algo está errado! Quando vamos ao dentista, se uma restauração ou prótese dentária fica mal ajustada, ficamos incomodados e não conseguimos comer direito. Ocorre algo semelhante com os cavalos. Se os dentes não têm um toque adequado uns com os outros, ficará incomodado e comerá mal. Um dente desajustado é capaz de quebrar o equilíbrio da boca inteira. Não permita casos nos quais tem dificuldades de mastigação e na equitação por vários dias e semanas.

10- Registro do procedimento odontológico: todo proprietário tem direito de saber qual foi o diagnóstico, o que foi realizado e administrado em seu cavalo. Assim como na odontologia humana, há fichas odontológicas (odontogramas) onde os achados e os procedimentos são registrados. O registro de um procedimento anterior é muito importante na avaliação da evolução do caso em um tratamento futuro. Como proprietário de um cavalo, você tem direito a uma segunda opinião, ou então, escolher outro dentista. A posse de um odontograma de um tratamento anterior pode facilitar o trabalho de outro profissional. Seria interessante que esta ficha fique arquivada no local onde está alojado o seu cavalo. Não aceite serviços odontológicos sem um odontograma que relate o procedimento.

A observação destes itens não garante a escolha de um dentista capacitado, porém, certamente irá auxiliá-lo na seleção do profissional que irá cuidar da boca de seu cavalo.

Em uma próxima edição, serão abordados aspectos referentes aos hábitos alimentares dos equinos. Você sabe como seu cavalo come?

*Luiz Fernando Rapp de Oliveira Pimentel (CRMV – SP 6215) é médico veterinário, graduado pela Universidade Federal de Viçosa em 1989, mestre em cirurgia veterinária pela FMVZ-USP em 2008 e doutorando em cirurgia veterinária pela FMVZ-USP. Odontologista de eqüinos desde 1998. Informações: (11) 9606.2828; e-mail: contato@luizrapp.com.br