Conheça a anatomia simplificada dos dentes do seu cavalo

Os cavalos possuem doze dentes incisivos (I), sendo seis incisivos mandibulares (inferiores) e seis incisivos maxilares (superiores). 1,2,3.Quando adulto, o cavalo possui 12 dentes pré-molares e 12 dentes molares que formam 4 fileiras de 6 dentes acomodados nos ossos da mandíbula e maxila2,3,4. Os dentes caninos estão presentes apenas nos machos e o “dente de Lobo” (primeiro pré-molar) está presente apenas em alguns animais, independente do sexo. (FIGURA 1).

 Figura 1: Identificação dos dentes no crânio de um equino.  Incisivos (verde), Caninos (lilás), Dente do Lobo (vermelho), Pré-Molares (azul) e Molares (ocre).

Os incisivos podem ser “dentes de leite ou caducos” que são substituídos por dentes definitivos (difiodontes) e sua função é o corte e apreensão da forragem. São dentes de coroa longa (hipsodontes).

Os dentes caninos e primeiro pré-molar (dente do lobo) são dentes de coroa simples (braquiodontes) e possuem apenas a forma permanente. Embora ocorra variação numérica individual, esses dentes estão localizados no espaço inter-dental (diastema), entre os incisivos e pré-molares, quando presentes12.  Estes dentes não têm contato com seus antagonistas, portanto não é necessário a erupção contínua para repor o desgaste da coroa3.

Os dentes caninos normalmente localizam-se no diastema de machos adultos. Normalmente sua erupção ocorre entre os 4,5 e 6 anos de idade, época a qual corresponde ao início do pico da maturidade sexual no garanhão. Acredita-se que sua função seja de defesa da manada e combate contra outros machos. Juntamente com os incisivos inferiores, os caninos inferiores servem de suporte para a língua no cavalo relaxado. Os caninos são dentes simples, menores que os incisivos e têm uma longa raiz curvada com a concavidade direcionada caudalmente. Quando presente em éguas os caninos são vestigiais, principalmente na mandíbula12.

Os dentes do lobo são os primeiros pré-molares vestigiais e ocorrem de maneira inconsistente 12,13,14. Normalmente são rostrais aos segundos pré-molares e normalmente não têm mais do que uma a dois centímetros de comprimento. Alguns dentes do lobo tornam-se angulados rostralmente e migram sob a mucosa e localizam-se por volta de três centímetros á frente (rostrais) ao segundo pré-molar. Como não ocorre erupção destes dentes, estes são ditos “dentes do lobo ocultos” 12.

Os dentes pré-molares e molares possuem coroas longas (hipsodontes).  Os pré-molares podem ser “dentes de leite ou caducos” que são substituídos por dentes definitivos (difiodontes), enquanto os dentes molares apresentam-se apenas na forma e dentes definitivos.  As funções dos dentes pré-molares e molares são triturar e mastigar os alimentos, momento no qual ocorrem alguns dos principais fenômenos físico-mecânicos da digestão. A importância desses fenômenos é dar início ao processo digestivo na boca e criar condições para ocorrer os demais processos digestivos subsequentes8. Os dentes pré-molares e molares têm uma natureza mais complexa que os incisivos. Os ossos da maxila que fixam os dentes são mais largos que os da maxila. Os dentes inferiores são mais estreitos que os superiores11. Entretanto, suas coroas estão posicionadas de tal maneira que suas superfícies de contato (cúspides oclusais) se inter-relacionam precisamente3.

FIGURA 2: Boca de cavalo fechada com a bochecha afastada, vista lateral oblíqua: Ossos e dentes da maxila (seta amarela) são mais largos que os da mandíbula (seta verde). Note como superfícies de contato (cúspides oclusais) se inter-relacionam precisamente.

A parte visível dos dentes dentro da boca do cavalo é a coroa clínica. O restante do dente (coroa de reserva e raízes) está inserido nos ossos da mandíbula e maxila. As coroas clínica e de reserva juntas são longas (hipsodontes), com sete a dez centímetros de comprimento. Os dentes crescem quase em sua totalidade até os 7-8 anos de idade, porém, possuem uma erupção contínua (elodontia) segue uma dinâmica de dois a três milímetros por ano, durante toda a vida do cavalo4,5,6.  A contínua extrusão, o uso e o desgaste dos dentes promovem a diminuição da coroa de reserva. A altura da coroa clínica e o comprimento das raízes permanecem praticamente o mesmo a partir da época de maturação do dente, mas a posição do ápice da raiz migra na direção da boca enquanto a coroa de reserva diminui. A erupção da coroa de reserva inserida no osso alveolar ocorre até a completa extrusão da coroa. Isto possibilita que equinos idosos mantenham seu aparato dental bem funcional por muito tempo (Figuras 3A e 3B).

Figura 3: Dente equino após exodontia (extração) 2 anos de idade; (B) 24 anos. Coroa clínica (seta verde); coroa de reserva (seta amarela), raízes (seta azul). Como o avançar da idade, o desgaste dentário promovida pela mastigação de forragem abrasiva, reduz o tamanho do dente. A extrusão contínua permite a manutenção da coroa clínica e raízes, apenas a coroa de reserva tem seu tamanho reduzido.

Acredita-se que, a prolongada erupção do dente hipsodonte, seja devido a contínua deposição de dentina e tração exercida pelo ligamento periodontal. A taxa de erupção deve ser equivalente a taxa desgaste oclusal de 2 a 3 milímetros por ano6.

Essas características (hipsodonte e elodontia) permitem que o eqüino se alimente até dezoito horas diárias com uma dieta composta de forragens abrasivas à superfície dentária devido aos seus constituintes como sílica, hemi-celulose, celulose e lignina7,8.

Os dentes dos cavalos são compostos por esmalte, dentina e cemento, tecidos que possuem rigidez e dureza diferentes que envolvem a polpa dentária (canal).  A superfície de mastigação (superfície oclusal) dos dentes dos cavalos combina propriedades de elasticidade e plasticidade diferentes, proporcionadas pela inter-relação dos três tecidos dentários: o esmalte, a dentina e o cemento9,10. Os tecidos dentários na superfície oclusal (superfície de mastigação) se remodelam constantemente, graças á diferença de resistência entre os três tecidos que compõem os dentes.

O esmalte é a substância mais resistente do organismo do equino. A dentina envolve a polpa (canal) sendo o tecido dentário mais abundante. É o único tecido ativo da superfície de mordida (oclusal), sendo responsável pelas atividades de reparo dentário e obliteração da polpa durante a erupção constante do dente, depositando dentina secundária. Existe uma relação íntima entre esmalte e dentina, em que esta dissipa a força de pressão durante a mastigação através de sua matriz mais elástica. Por outro lado a resistência do esmalte protege a dentina contra o desgaste excessivo. O cemento situa-se na periferia e no infundíbulo da superfície oclusal secundária dos dentes pré-molares e molares, sendo um tecido vivo somente na porção subgengival, onde os cementoblastos são nutridos pela vasculatura do ligamento periodontal. A polpa é um tecido gelatinoso que ocupa a cavidade central do dente e é circundada por dentina (MUELLER, 1991). É composta por nervos, artérias, veias, ramos linfáticos, células de tecido conectivo, substância intercelular, odontoblastos, fibroblastos, macrófagos e fibras colágenas. A área central da polpa contém vasos sanguíneos e troncos nervosos, sua periferia da polpa é circundada por uma área composta de odontoblastos, uma zona livre de células e uma zona rica em células que apresenta as seguintes funções de desenvolvimento e formação, nutrição, proteção e defesa ou reparação dentária.

 Figura 4: Superfície de mordida (oclusal) do dente 1º molar maxilar extraído de um cavalo de 5 anos. Esmalte (E), Dentina (D), Cemento (C), Infundíbulo (I). As polpas estão recobertas pela dentina a superfície oclusal e não podem ser observadas nesta foto.

 

Literatura Consultada 

1- PEYER, B. Comparative odontology. Chicago: University of Chicago, 1968, p.17-27.

2- Dixon, P.M.; Dacre, I. A review of equine dental disorders. The Vet. Journal, v.169, 2005, p. 165-187.

3- Easley, J. Equine dental development and anatomy. AAEP Proceedings. v. 42, p. 1-10, 1996.

4- LOWDER, Q. M.; MUELLER, P. O. E. Dental embryology, anatomy, development and aging. Vet. Clin. North Am., v. 14, n. 2, p. 227 – 246, 1998.

5- DIXON, P.M. The aetiology, diagnosis and current therapy of developmental and acquired equine dental disorders. In: CONGRESS ON EQUINE MEDICINE AND SURGERY, 8.,2003, Geneva. Proceedings… Geneva: IVISO, 2003.

6- Toit, N. Gross equine dentition and their supporting structures. In 50th Anual Convention of the American Association of Equine Practioners, 2004 – Denve CO, USA. , Dec, 2004.

7- Dixon, P.M. Dental anatomy. In: Baker, G.J.; Easley,K.J. Equine Dentistry 2nd edition. London. W.B. Saunders, p. 25-48, 2005.

8-ALVES, G.E.S. Odontologia como parte da gastroenterologia – sanidade dentária e digestibilidade. In: Cong. Bras. Cir. Anest. Vet. Mini Curso de Odontologia Eqüina, 6, 2004, Indaiatuba, 2004, p. 7-22.

9-Tremaine, H. Dental care in horses. In Practice, v.19, p. 186-199, Abril, 1997.

10-Pagliosa, G.M. Aspectos fisiopatológicos e terapêuticos das odontopatias adquiridas: doenças periapical, periodontal e infundibular. In: Cong. Bras. Cir. Anest. Vet. Mini Curso de Odontologia Eqüina, 6, 2004, Indaiatuba, 2004, p. 37-52.

11- Emily, P.; Orsini, P.; Lobprise, H. B.; Wiggs, R. B. Oral and Dental Disease in Large Animals. Veterinary Dentistry: principles and practice. Lippicott-Raven, 1997. Philadelphia. c. 19, p. 559-579.

12-Easley, K. J. Equine canine and first premolar (wolf) teeth. In 50th Anual Convention of the American Association of Equine Practioners, 2004 – Denve CO, USA. , Dec, 2004.