Fisiologia da Mastigação dos Eqüinos e sua Influência sobre a Estação de Monta – Luiz Rapp

Luiz Fernando Rapp de Oliveira Pimentel
M.V., MSc., Ph.D
Odontologista de equinos desde 1998
 

            Uma nova estação de monta está começando. O ideal é que as éguas e garanhões estejam em plena forma com ótima saúde para o desempenho de suas funções reprodutivas. Éguas recém paridas devem fornecer o leite em quantidade suficiente para manter uma curva de crescimento ideal para seus potros. A dificuldade de mastigação e digestão pode impedir a absorção dos ingredientes da dieta e afetar o desempenho reprodutivo e a produção de leite. O conhecimento de alguns aspectos relativos á mastigação e a identificação de problemas que podem afetar a digestão dos alimentos pode ajudar a melhorar a performance de seus animais. 

 1-      Hábitos Alimentares dos Equinos

Os cavalos são animais de pastoreio contínuo. Em seu habitat natural, um eqüino mastiga por um tempo que equivale até setenta e cinco por cento do dia (até 18 horas/dia!). De acordo com uma das mais respeitadas autoridades acadêmicas do país, , professor doutor Geraldo Eleno Silveira Alves da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, “ o pastoreio contínuo por longo tempo nos permite pensar que a mastigação é um ato que motiva o prazer para o equino. Caso contrário, o eqüino evitaria este ato, minimizando o tempo de mastigação, como ocorre em casos de doenças ou restrição do seu ambiente natural”.

Os eqüinos têm por hábito um pastoreio seletivo e tendem a evitar comer a forragem em locais poluídos com esterco e urina. Cavalos confinados em baias, com livre acesso à forragem, podem exibir os mesmos hábitos alimentares e normalmente comem até 18 horas por dia em sessões que duram de 30 a 10 minutos. Em contraste, cavalos confinados comem rações concentradas mais rapidamente. Isto provoca um desgaste anormal dos dentes que pode gerar desconforto e dor que irão influenciar na digestão dos alimentos e na condução quando montados.

Os cavalos mantidos a pasto praticam uma mastigação com predominância do movimento lateral da mandíbula sobre os movimentos verticais. Por outro lado, cavalos mantidos em cocheiras e alimentados com muita ração industrializada e pouca disponibilidade de feno ou capim praticam uma mastigação anormal, com predominância de movimentos verticais da mandíbula. Este tipo de movimento não é eficiente para a trituração da fibra da forragem.

 2-      A relação entre mastigação, a digestão e a performance reprodutiva

Ao longo da espécie, a característica e formato dos dentes desenvolveu-se para tornar os cavalos capazes de detectar, apreender, mastigar e iniciar a digestão da forragem.

A mastigação envolve as ações da mandíbula, língua e bochechas e consiste no primeiro ato da digestão. Ela serve não somente para quebrar as partículas de alimento em um tamanho adequado para passar pelo esôfago, mas também para umedecer e lubrificar o alimento, ao misturá-lo com a saliva. Anormalidades dos dentes são uma causa comum de distúrbios gastrointestinais em cavalos.

Apreensão, Mastigação, salivação e deglutição são atividades fisiológicas da cavidade oral, a primeira área do trato digestivo. A mastigação tritura o alimento, promovendo um aumento da superfície de contato, o que facilita a ação das enzimas digestivas. Da união do alimento triturado e saliva, resulta um bolo lubrificado pronto para a deglutição. A salivação facilita a mastigação assim como a deglutição. Um cavalo de 500kg produz pelo menos 25 litros de saliva por dia. Esta intensa produção de saliva é importante para umidificar os alimentos ingeridos e proteger o estômago contra a ação dos ácidos gástricos. Recentes pesquisas demonstraram que, animais sofrendo de dores contínuas, independente da origem (por exemplo, dor crônica devido a uma manqueira ou, após uma cirurgia), quando não há analgesia (controle da dor) suficiente; diminuem drasticamente a produção de saliva e isto pode levar á cólica.

A mastigação é um processo muito importante para os eqüinos, pois, junto com outros fatores é a primeira parte da digestão. Logo, quando o cavalo tem qualquer problema na mastigação, acarretará outro na digestão. Novamente devemos lembrar que, o cavalo em seu habitat natural passa cerca de setenta e cinco por cento do seu dia pastando, o que equivale a 18 horas, e assim sendo, deve ser uma atividade prazerosa, que lhe traz satisfação. A atividade dos dentes é primordial para a digestão das forragens. Já para ração concentrada, pequenos problemas dentários não acarretam sérios problemas. Problemas com a mastigação podem acarretar alguns problemas como a queda na performance reprodutiva (devido á má absorção dos nutrientes da dieta) e indigestão que resultam em cólicas e podem levar o animal á morte.

  Como saber se minha égua não mastiga normalmente? 

Nossos animais conversam conosco (através de sintomas clínicos), portanto, resta a nós entendermos o que nosso animal está tentando nos dizer. É muito comum o equino apresentar sinais de dificuldade mastigatória, porém, como muitas vezes estes sinais são sutis, eles passam despercebidos. A boa condição física não é garantia de que a saúde bucal de seu equino esteja em boas condições. Muitos animais sofrem em silêncio até que, na presença de doenças dentárias avançadas, o cavalo começa apresentar sinais claros de desconforto e dificuldades p/ mastigar, digerir e ser montado.

Há um consenso na comunidade acadêmica e científica mundial que há uma deficiência no ensino e aprendizado sobre os hábitos alimentares e a mastigação dos cavalos. Se poucos veterinários realmente sabem como um cavalo mastiga normalmente; como cobrar esta observação de professores de equitação, treinadores, proprietários e tratadores? A seguir veremos um

 A-INSPEÇÃO DA BAIA: O QUARTO DE SEU CAVALO/ÉGUA

Imagine você, ao entrar no quarto de seu filho ou filha e encontra tudo revirado e bagunçado. Imediatamente você pensa: algo está errado, isto não acontece normalmente; vamos ver o que está acontecendo! Com seu cavalo acontece o mesmo; ao entrar na baia e encontrar feno ou capim espalhado por todos os lados, cocho de água sujo com restos de ração e feno, comida parcialmente mastigada perto do cocho, algo de errado está acontecendo! Estes são os primeiros sinais de que seu cavalo apresenta problemas para mastigar (figura 1). Na presença de dor ou desconforto para comer, o cavalo come mais devagar e fica inquieto na baia, por isto o feno ou o capim fica espalhado por toda a baia. Esta dor e desconforto também provocam a abertura da boca durante a mastigação e a comida cai de dentro da boca (figura 2). Quando a comida fica acumulada dentro da boca devido á algum tipo de distúrbio de mastigação, o cavalo “lava a boca no cocho de água”. Compare a baia de seu cavalo com os vizinhos; o tratador certamente irá identificar qual é o cavalo que mais faz sujeira e bagunça dentro da baia (é muito mais trabalhoso para limpar e organizar!). Observe o lado de fora da baia, pode haver restos de feno, capim e até ração do lado de fora da porta (figura 3). Para éguas que ficam á pasto, verifique os mesmos achados ao redor do centro de manejo e dos cochos de comida.

Como os alimentos são triturados apenas na boca, dificuldades mastigatórias farão com que fibras longas e grãos inteiros apareçam nas fezes. Pedaços de capim ou feno maiores que 1 cm e presença de aveia, milho ou linhaça inteiros nas fezes são sinais que a  mastigação não é adequada (figura 4).

 B-O CAVALO CONVERSA COM VOCE: OS SINAIS DE DIFICULDADE PARA MASTIGAR E DIGERIR

            Estatísticas americanas revelam que a distúrbios odontológicos são a 3ª doença mais comum na medicina eqüina. Porém, a odontologia eqüina ainda é uma área muito negligenciada. Quando suspeitar de um possível dentário e mastigatório?

B.1- MAGREZA OU DIFICULDADE DE GANHO DE PESO. Parasitismo e nutrição inadequada são as primeiras causas investigadas. Então, diversas doenças são consideradas, sendo que, geralmente, as doenças odontológicas são checadas em último caso. Um estudo realizado no Brasil com 75 cavalos sadios, estabulados, com diferentes estados corpóreos (magro, regular, bom e obeso) revelou que, todos os cavalos com perda peso e magreza apresentavam desgaste dentário anormal. Em um período entre 90 a 120 dias após a reprogramação da mordida e reavaliação dos animais, o estado corpóreo melhorou e ocorreu ganho de peso. Uma observação interessante foi que, os animais que não apresentavam magreza, também ganharam peso e foi preciso diminuir a quantidade de ração oferecida diariamente, ou seja, a boa condição física não garante que não há problemas de mastigação e digestão. Muitos eqüinos não apresentam qualquer sinal de afecções odontológicas até que ocorram intensas mudanças dentárias.

B.2-SALIVAÇÃO EXCESSIVA.  Durante a equitação a salivação é um sinal de descontração no trabalho. Porém, na baia em repouso e durante a alimentação, a produção de saliva em excesso ao ponto de escorrer da boca (o cavalo “baba”) pode ser um sinal de ferida na língua ou em outra parte da boca, geralmente causada por um dente fora de posição ou fraturado.

            B.3-HALITOSE (“MAU HÁLITO”). Muita gente fica surpresa quando fica sabendo que o cavalo pode apresentar mau hálito, porém, isto pode ocorrer com freqüência! A comida acumulada dentro da boca devido á algum problema dentário irá fermentar e causar doença periodontal (“gengivite”). O mau hálito muitas vezes não é percebido porque o cavalo não fala e permanece a maior parte do tempo com a boca fechada. Ao aproximar o nariz da boca do cavalo, em algumas ocasiões você sentirá um cheiro que dificilmente irá esquecer. 

            B.4-CÓLICA. Como já citado, a presença de dor constante, independente da origem, pode levar á diminuição da produção de saliva. Outros motivos que podem levar á episódios de cólica são a diminuição de ingestão de água (dor dentária ou gengival) e a mastigação pouco eficiente (a digestão é prejudicada). Problemas dentários não são a causa de todos os problemas, porém, na presença de cólica, após a recuperação do cavalo, o exame da cavidade oral deve ser realizado.  

             B.5-CORRIMENTO DE PÚS EM APENAS UMA NARINA. As raízes de alguns dentes estão localizadas junto aos seios maxilares. Problemas dentários podem ser a causa primária de sinusite, principalmente aquelas de difícil resolução.

             B.6-ALTERAÇÕES DE COMPORTAMENTO, DIFICULDADE PARA CICLAR E BAIXA PRODUÇÃO DE LEITE. A presença de dor durante a mastigação, além de ser um incomodo constante, pode fazer com que os animais engulam partículas excessivamente grandes e a digestão perderá eficiência na absorção de nutrientes e produção de energia. Agressividade, “mau humor”, apetite seletivo (escolhe o que come e separa alguns componentes da ração no cocho), ciclo estral anormal,  reduzida produção de leite, potro magro e mais baixo que os outros do plantel podem ser sinais de dificuldade de mastigação e digestão.

             Os problemas odontológicos não são a causa de todos os problemas de saúde de garanhões e éguas. O exame odontológico incluído na preparação para a estação de monta para identificar e corrigir possíveis problemas de mastigação que afetaram a digestão e o desempenho reprodutivo de seus animais.