A influência dos hábitos alimentares sobre a dentição e a digestibilidade

Os equinos são animais de pastoreio contínuo. Em condições de seu habitat, um equino mastiga por um tempo que equivale até setenta e cinco por cento do dia5.

Segundo Alves8, isto permite inferir que a mastigação é um ato que motiva o prazer. Caso contrário, o equino evitaria este ato, minimizando o tempo de mastigação, como ocorre em casos de enfermidades ou restrição do seu habitat natural.

Os equinos tem por hábito um pastoreio seletivo e, tendem a evitar comer a forragem em locais poluídos com esterco e urina. Cavalos confinados em baias com livre acesso a forragem, podem exibir os mesmos hábitos alimentares e normalmente comem 10 a 12 horas por dias em sessões que duram de 30 a 180 minutos. Em contraste, cavalos confinados comem alimentos concentrados ou peletizados mais rapidamente. Estes cavalos estabulados e que não tem livre acesso ao pastoreio não usam seus incisivos para o corte e, isto pode torna-los demasiadamente longos devido a ausência de atrito e desgaste3, 18 (Figura 1). Dentes incisivos longos reduzem o contato oclusal (superfície de mordida) dos dentes molares e pré molares que são responsáveis pela trituração e mastigação dos alimentos. Isto reduz a eficiência mastigatória e a digestibilidade18.

FIGURA 1 (A) Dentes incisivos de tamanho normal; (B) cavalo estabulado por longo período, incisivos longos

 Gramíneas, feno e silagem são alimentos ricos em sílica e, devem promover o desgaste dentário numa taxa semelhante a taxa de erupção. No entanto, dietas ricas em alimentos concentrados reduzem o desgaste da superfície oclusal e restringem a amplitude da excursão da mandíbula. Como a taxa de erupção não é alterada, pode ocorrer sobre-erupção dos dentes.

Equinos mantidos a pasto praticam uma mastigação com predominância do movimento de excursão lateral da mandíbula sobre os movimentos verticais. Por outro lado, equinos mantidos em cocheiras e alimentados com ração industrializada, praticam uma mastigação anormal, com predominância de movimentos verticais da mandíbula. Este tipo de movimento não é eficiente para a trituração da fibra da forragem3,5. Não há um modelo padrão de mastigação. A maneira pela qual o alimento é triturado depende da comida e do formato dos dentes molares e pré-molares2.

            O ciclo da mastigação é composto por quatro fases (figura 2) inicialmente observa-se que o movimento vertical (de 1 a 3) ocorre quando o animal abre a boca. O fechamento se dá através do movimento diagonal (de 3 a 5), que possibilita o início do próximo movimento que é o lateral (de 5 a 9). O movimento lateral é o mais importante da mastigação de bovínos e equídeos, visto que proporciona as principais etapas da quebra do alimento do tipo forragem. A última fase do ciclo é o retorno que ocorre o movimento misto vertical-diagonal (de 9 a 1)8.

Figura 2: Ciclo mastigatório do equino. (A) representação esquemática; (B) cavalo mastigando.

Assim como os humanos, existem equinos mastigadores esquerdos, direitos e bilaterais. Na presença de dor na boca (cavidade oral), os equinos são capazes de alterarem o lado e o modelo de mastigação e isto pode provocar desgaste anormal de incisivos, molares e pré molares. Qualquer distúrbio odontológico que afeta um dente incisivo, potencialmente pode provocar um desgaste anormal de molares e pré molares. Da mesma forma, um dente molar ou pré molar afetados por um distúrbio odontológico, pode provocar o desgaste anormal dos incisivos. A presença de dor odontológica reduz a eficiência mastigatória e a digestibilidade 2,8,18 (Figura 3).

Figura 3: dentes incisivos  de equino com desgaste anormal devido á presença de dor provocada pela fratura e doença periodontal de um dente molar.

2- Dixon, P.M.; Dacre, I. A review of equine dental disorders. The Vet. Journal, v.169, 2005, p. 165-187.

3- Easley, J. Equine dental development and anatomy. AAEP Proceedings. v. 42, p. 1-10, 1996.

5- DIXON, P.M. The aetiology, diagnosis and current therapy of developmental and acquired equine dental disorders. In: CONGRESS ON EQUINE MEDICINE AND SURGERY, 8.,2003, Geneva. Proceedings… Geneva: IVISO, 2003.

8-ALVES, G.E.S. Odontologia como parte da gastroenterologia – sanidade dentária e digestibilidade. In: Cong. Bras. Cir. Anest. Vet. Mini Curso de Odontologia Eqüina, 6, 2004, Indaiatuba, 2004, p. 7-22.

10-Pagliosa, G.M. Aspectos fisiopatológicos e terapêuticos das odontopatias adquiridas: doenças periapical, periodontal e infundibular. In: Cong. Bras. Cir. Anest. Vet. Mini Curso de Odontologia Eqüina, 6, 2004, Indaiatuba, 2004, p. 37-52.

18- Pimentel, L. F. R. O. Determinação da oclusão funcional ideal. In: VII Cong. Bras. Cir. Anest. Vet. – II Miniciurso de odontologia equina, 7, 2006, Santos, p. 29-36.