Sinais que indicam a presença de problemas odontológicos que podem afetar a performance do cavalo atleta

Luiz Fernando Rapp de Oliveira Pimentel, Médico Veterinário.
Graduado pela Universidade Federal de Viçosa em 1989.
Mestre em Cirurgia Veterinária (ênfase em odontologia eqüina) pela FMVZ/USP em 2008.
Professor Doutorado em Cirurgia Veterinária (ênfase em reconstrução facial em eqüinos) pela FMVZ/USP em 2012

O ditado “A SAÚDE COMEÇA PELA BOCA” usado com freqüência por nossos dentistas pode ser utilizado pelo veterinário de seu cavalo.A odontologia eqüina é muito importante para a manutenção da performance do cavalo atleta, porém, até recentemente, foi uma área da medicina eqüina muito negligenciada, com muitos cavalos sofrendo de distúrbios odontológicos não diagnosticados¹.
Com freqüência, cavalos eram encaminhados aos veterinários com problema de perda de peso. Parasitismo e nutrição inadequada são as primeiras causas investigadas. Após descartar tais possibilidades, diversas doenças eram consideradas para então, geralmente em último caso, as doenças odontológicas seriam checadas².
De acordo com estatísticas norte americanas, os distúrbios odontológicos em eqüinos são considerados como a terceira doença mais comum na medicina eqüina nos EUA¹.
O Brasil possui o segundo maior rebanho eqüino do mundo com aproximadamente sete milhões de animais. Como a sanidade e funcionamento dentários adequados são fundamentais para o pleno desenvolvimento e desempenho; quase todo eqüino necessita de algum tratamento odontológico³.
Como o acesso ao interior da boca de um cavalo é limitado e com risco de acidentes (mordidas!), como suspeitar que o seu cavalo pode apresentar uma alteração odontológica e solicitar ao seu veterinário de confiança um exame odontológico completo?
Aspectos como manejo e hábitos alimentares, alterações de comportamento, dificuldades na condução, ganho de peso e queda de performance devem ser considerados quando se suspeita de processos dolorosos de origem odontológica4.
Objetivo deste pequeno guia é fornecer informações para o diagnóstico de distúrbios odontológicos em eqüinos na rotina diária de treinamento.

MANEJO, HÁBITOS ALIMENTARES,  MAGREZA E PERDA DE PESO

Os eqüinos são animais de pastoreio contínuo. Em condições naturais, um eqüino no pasto mastiga até 20 horas por dia1. Isto permite considerar que a mastigação é um ato que motiva o prazer. Caso contrário, seu cavalo evitaria este ato, minimizando o tempo de mastigação, como ocorre em casos de doenças ou restrição do psatoreio e aumento da estabulagem³. Quando os cavalos são mantidos a pasto praticam uma mastigação com predominância do movimento de excursão lateral da mandíbula sobre os movimentos verticais. Cavalos confinados por longo tempo em baias comem alimentos concentrados ou peletizados mais rapidamente, praticam uma mastigação anormal, com predominância de movimentos verticais da mandíbula. Este tipo de movimento não é eficiente para a trituração da fibra da forragem e provocam um desgaste anormal dos dentes Estes cavalos confinados e que não tem livre acesso ao pastoreio não usam seus dentes incisivos para o corte e, isto pode torná-los demasiadamente longos devido a ausência de atrito e desgaste. Como consequência, os dentes pré molares e molares, responsáveis pela mastigação, tem seu contato reduzido, a eficiência da mastigatória é menor, a digestibilidade torna-se menos eficiente dificultando o ganho de peso1,3,4,(figura 1).

Figura 1: Cavalo estabulado há mais de um ano. Os dentes incisivos tornam- se longos e reduzem a eficiência da mastigação realizada pelos dentes molares e pré molares.
Fonte: Pimentel, 2008

Pela mastigação os dentes proporcionam condições para ocorrer os principais fenômenos físico-químicos da digestão, sem o quais, não será iniciada uma digestão adequada, como também a digestibilidade dos alimentos sólidos ficará dificultada. A importância desses fenômenos é dar início a um processo digestivo na boca e criar condições para ocorrer os demais processos químicos digestivos subseqüentes que ocorrem no estômago e intestinos5. Na boca ocorre ainda o início dos fenômenos químicos da digestão, principalmente pela ação enzimática da saliva sobre os carboidratos. A mastigação é um processo muito importante para os eqüinos, pois, junto com outros fatores é a primeira parte da digestão. Logo, quando o cavalo tem qualquer problema na mastigação, acarretará um outro na digestão. A atividade dos dentes é primordial para a digestão das forragens, já para concentrados pequenos problemas dentários não acarretam sérios problemas. Desta forma, a dificuladade de mastigar o feno ou capim fresco é um dos primeiros sinais de alterações dentárias. Isto pode ser observado pela presença de restos de capim ou feno parcialmente mastigados caídos ao redor do cocho e próximo á porta da baia3 (Figuras 2 e 3). A presença do feno espalhado por toda a cama também é um sinal de dificuldade mastigatória. Problemas com a mastigação podem acarretar alguns problemas como a queda na performance e indigestão que resultam em cólicas e podem levar o animal ao óbito6.

Figura 3 Feno parcialmente mastigado caído próximo á porta da baia também é u sinal de dificuldade mastigatória.
Fonte: Pimentel, 2009

Figura 2: A presença de feno e ração caídos fora do cocho indicam dificuldade mastigatória e possível alteração odontológica.
Fonte: Pimentel, 2009

Como os alimentos são triturados apenas na boca pelos dentes, muita atenção deve ser direcionada às fezes de seu cavalo, para se ter uma idéia de como o feno, o capim e a ração tem sido processados e digeridos. O exame das fezes não deve revelar a presença de grãos inteiros ou partículas de forragem maiores que aproximadamente 0,64cm de comprimento4 (Figura 4).

Figura 4: Fezes de cavalo de cavalo estabulado há mais de um ano que apresenta dificuldades mastigatórias á esquerda. Presença de fibras longas. No lado direito as fibras são bem menores.
Fonte: Pimentel, 2004

Muitos cavalos não apresentam qualquer sinal de afecções odontológicas até que ocorram intensas mudanças dentárias. Apesar da perda de peso constituir um possível sinal de distúrbios dentários, é bom considerar que é frequente a sua ocorrência, a não ser que os mesmos sejam graves e crônicos. Desta forma, a presença de boa condição física não é motivo para dispensar a necessidade do exame e tratamento odontológico3,6.

ANÁLISE DO HISTÓRICO

A probabilidade de um diagnóstico correto é potencializada através da obtenção de uma anamnese detalhada. As seguintes informações devem ser consideradas:

a) O comportamento de seu cavalo mudou? Está mais tenso ou nervoso? Os sinais clínicos de distúrbios odontológicos frequentemente não são evidentes para o proprietário, treinador ou cavaleiro até que a patologia seja bem avançada. Os sinais clínicos de distúrbios odontológicos na maioria das vezes não são específicos e podem refletir em outros sistemas do corpo. Um exemplo disto são cavalos mostrando sinais de contraturas musculares que são suprimidos quando o problema odontológico é corrigido. Um estudo de mestrado realizado com 75 cavalos na Faculdade de Medicina Veterinária da USP revelou um histórico 22,9% de dificuldades de equitação. Porém, no período de 90 a 120 após o atendimento odontológico ocorreu melhora e facilitação da equitação em 78,3% dos cavalos analisados neste estudo¨7.

b) Na equitação; observe os hábitos quando o cavalo está sendo montado. O cavalo “briga” com a embocadura? Morde insistentemente o bridão ou freio (Figura 5)? Balança, levanta ou estica a cabeça? Há dificuldade para virar para um dos lados? Arrancadas repentinas ou tensão e nervosismo durante o trabalho podem ser sinais de processos dolorosos no interior da boca.

Figura 5: Bridão de silicone com marca de mordida (setas vermelhas) devido á presença de distúrbio odontológico.
Fonte: Pimentel, 2004

c) o histórico de atendimento odontológico é muito importante. Quando o cavalo foi atendido pela última vez? Quem realizou o procedimento (prático ou médico veterinário)? Foi o primeiro do paciente? Após o atendimento o problema piorou ou melhorou? Que tipos de materiais foram utilizados no procedimento (grosas, motores elétricos, etc.)? O cavalo melhorou ou piorou após o atendimento? Existe um odontograma veterinário relativo ao exame?

d) em algum momento os lábios e comissuras labiais (cantos da boca) apresentaram feridas, úlceras e cortes (figura 6).

Figura 6: Ferida e úlcera na comissura labial (canto da boca) de cavalo com distúrbio odontológico (setas Vermelhas).
Fonte: Pimentel, 2000

e) Houve a presença de corrimento nasal em apenas uma narina? A raiz de alguns dentes estão inseridos no assoalho do seios maxilares. Infecções dentárias podem provocar sinusite. Muitos casos são confundidos com problemas respiratórios, antibióticos são administrados e isto pode mascarar a manifestação de um problema odontológico.

f) Houve presença de mal cheiro  na boca ou narina? Gengivite, fraturas dentárias e  acúmulo de comida podem provocar a presença de acúmulo de comida fermentada no interior da boca e provocar odores ruins.

Os sinais clínicos mais comum que indicam um exame odontológico completo são :

●      Devolução da feno ou capim parcialmente mastigada durante a mastigação;
●      Dificuldade de mastigar ou engolir;
●      Salivação excessiva;
●      Volume na bochecha causado por acúmulo de comida;
●      Grandes fragmentos de forragens e grãos inteiros presentes nas fezes;
●      Movimentos com a cabeça podendo ser sacudir, balançar ou inclinar e abaixar durante a mastigação e ou equitação.
●      Movimentos com a língua na forma de torcer ou girar quando montado ou se alimentando.
●      Deformidade na borda da mandíbula e nos ossos da face com ou sem corrimento de secreção..
●      Dificuldade respiratória por obstáculo nasal e sinusite;
●      Corrimento nasal sanguinolento, purulento, pútrido, etc.;
●      Mastigar, morder ou reagir contra a embocadura.
●      Resistência ao comando pela embocadura para virar ou parar;
●      Limitação ou queda de performance;
●      Perda de peso ou dificuldade de ganho;
●      Posturas anormais durante a equitação como cabeça extremamente baixa, flexão excessiva entre C2 e C3 (“encapotado”), lordose ou cifose na região lombar6,7.

Diversos sinais e sintomas podem acusar a presença de distúrbios orais e dentários. Contudo é relevante salientar a frequência elevada de problemas na boca e nos dentes sem manifestação de sinais e sintomas clínicos. Adicionalmente, também é importante considerar que alguns equinos desenvolvem uma capacidade de se adaptar a determinados desconfortos, passando a sofrer em silêncio3.

É muito importante incluir um eficiente exame oral e odontológico como parte do exame físico geral de todo cavalo apresentado ao médico veterinário. Há uma tendência de apenas olhar ou tentar observar a boca do animal quando o proprietário, treinador ou cavaleiro relata um “problema”, o qual pode indicar a presença de uma afecção odontológica. Na verdade é que, se não é examinado, não é diagnosticado; consequentemente, não é observado a presença ou severidade de anormalidades em cavalos aparentemente “normais”.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALVES, G. E. S. Odontologia como parte da gastroenterologia – sanidade dentária e digestibilidade. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIRURGIA E ANESTESIOLOGIA VETERINÁRIA 6., 2004, Indaiatuba, SP. [Anais...] Indaiatuba: Faculdade de Jaguariúna, 2004. p. 7-22. Mini Curso de Odontologia Eqüina.

DIXON, P. M.; DACRE I. A review of equine dental disorders. The Veterinary Journal, v. 169, p. 165-187, 2005.

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LOWDER, M. Q. Dental disease and nutrition. Journal of Equine Veterinary Science, v. 24, n.4, p. 169-170, Apr. 2004. Disponível em: <www.ivis.org>. Acesso em: 04 ago. 2007.

PAGLIOSA, G. M. Influência das pontas excessivas de esmalte dentário na digestibilidade dos nutrientes das dietas dos eqüinos. 2004.34 f. Dissertação (Mestrado em Clínica e Cirurgia)- Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, 2004.

PIMENTEL, L. F. R. O.  Análise de parâmetros oclusais e clínicos para o ajuste oclusal em equinos (Equus caballus) estabulados, 2008. 122 p. Dissertação (Mestrado em Clínica Cirúrgica) Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

PIMENTEL, L. F. R. O.; ZOPPA A. L. V.; ALVES, G. E. S.; AMARAL R. F. Equine dental disosders: review of 607 cases. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 27, p. 111, 2007. Suplement.